Exercício reduz necessidade de ação da insulina, diz estudo sobre diabetes

Os benefícios do exercício físico para o Diabetes tipo 2 são conhecidos e divulgados em todo o mundo, a American Heart Association classifica, em nível máximo de evidência, que a prática dos exercícios físicos regularmente melhora a sensibilidade à insulina, a glicemia de jejum e é capaz de diminuir os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c). Além disso, diversos estudos ainda relacionam a prática dos exercícios físicos com melhora da composição corporal e diminuição dos fatores de risco cardiovasculares nos pacientes com resistência à insulina.

Primeiro precisamos entender como o exercício físico é capaz de melhorar a sensibilidade à insulina. Um artigo de revisão do International Journal of Endocrinology publicado em 2013 mostra que a contração muscular desempenhada no exercício é capaz de translocar os receptores GLUT-4 sem a necessidade da ação da insulina.

Uma das ações fundamentais da Insulina é a manutenção da euglicemia no nosso sangue, ou seja, efetuar o transporte da glicose sanguínea para o interior das células do nosso corpo como, por exemplo, as células musculares quando necessário. Para isso, a insulina possui um receptor específico de membrana celular que “ativa“ os transportadores de glicose (GLUT-4) que fazem o transporte das moléculas de glicose da corrente sanguínea para o meio intracelular.

Outro mecanismo também estudado, apenas em camundongos, é a relação do exercício físico com a diminuição do clearance de insulina o que poderia favorecer a sensibilidade celular e a diminuição da secreção pancreática de insulina como mostra interessante e recente estudo de Costa-Junior J. (PLOS One, 2015)

Indivíduos diabéticos ou com síndrome metabólica (sobrepeso, resistência à insulina, e hipertensão arterial) podem ter um enorme benefício quando praticam exercícios físicos. Esses indivíduos passam a secretar menos insulina até 72h após uma sessão de treinamento devido a translocação de GLUT-4 causada pela contração muscular. Outro detalhe importante é que quanto maior for a intensidade do exercício maiores são os benefícios como mostram os estudos de Stephen R. (Mauritas, 2012) e Little J. (J Appl Physiol, 2011). É o que também afirma a diretriz de 2014 da Sociedade Brasileira de Diabetes que já coloca o treino de alta intensidade intervalado, do inglês HIIT (High Intensity Interval Training), como recomendação para melhora de pacientes diabéticos.

O HIIT parece ainda facilitar uma maior biogênese mitocondrial que favorece o maior consumo de glicose pelas células e a maior capacidade oxidativa celular.

Uma outra novidade além do o HIIT é a recente recomendação do treinamento de força e resistência para o tratamento do Diabetes 2. Um enorme estudo controlado e randomizado de SoJung L. (American Diabetes Association, 2012) mostrou que a musculação foi mais efetiva do que o exercício aeróbico na melhora da resistência à insulina e na diminuição da gordura visceral. Outra novidade é a relação entre o aumento de até 18% na densidade capilar muscular levando a melhora da resistência à insulina como demonstra o estudo recente de Prior S. (American Diabetes Association, 2015). Esse estudo levanta a hipótese de que, além da translocação independente de insulina do GLUT-4, exista um segundo mecanismo relacionando uma melhor resposta a sensibilidade à insulina com a melhora da densidade dos capilares musculares.

Não existem dúvidas de que prática regular de exercícios físicos é uma das chaves principais para a prevenção e para o tratamento da resistência à insulina e para o diabetes tipo 2. É muito importante enfatizar que pacientes com Diabetes 2 devem realizar treinamento supervisionado com profissional de educação física, monitorar eventuais hipoglicemias esforço induzidas e devem evitar iniciar um exercício físico com glicemia >250mg/dl. Por isso, consulte sempre seu médico endocrinologista.

Referências:

1 – YoonMyung K. and Hanui Park. Review Article – Does Regular Exercise without Weight Loss Reduce Insulin Resistance in Children and Adolescents? International Journal of Endocrinology 2013. 402592 pg. 10

2 – SoJung L. et al. Effects of Aerobic Versus Resistance Exercise Without Caloric Restrition on Abdominal Fat, Intrahepatic Lipid, and Insulin Sensitivity in Obese Adolescent Boys a Randomized, Controlled Trial. Diabetes – 2012 no. 10.2337/db12-0214.

Adultos com estresse crônico são mais propensos à obesidade persistente

A obesidade é um dos principais fatores de risco para o aumento da mortalidade em todo o mundo, aumentando substancialmente o risco do desenvolvimento de doenças crônicas, como as doenças cardíacas e o câncer. Os fatores que promovem o aparecimento ou a manutenção da obesidade tem importantes implicações terapêuticas. A obesidade é muitas vezes acompanhada por outras doenças, incluindo hipertensão arterial, resistência à insulina e a dislipidemia, conhecida como a síndrome metabólica – doença caracterizada pela extrema produção do hormônio do estresse (cortisol).

Os sintomas da síndrome metabólica são muito semelhantes aos da síndrome de Cushing, uma doença caracterizada pela extrema produção endógena do hormônio do estresse, o cortisol.

O cortisol tem uma ampla gama de efeitos fisiológicos em todo o corpo humano e desempenha um papel no metabolismo da glicose e dos lipídios. Sua secreção se relaciona com a composição corporal do indivíduo e também participa de respostas imunossupressoras e anti-inflamatórias. É possível que a hiperativação a longo prazo do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), sistema neuroendócrino que regula os níveis de cortisol, possa contribuir para o desenvolvimento da obesidade e da síndrome metabólica em indivíduos saudáveis.
Exposição ao estresse.

A exposição a um estresse fisiológico ou psicológico ativa o eixo HPA, resultando na liberação do cortisol. O estresse crônico e, portanto, os níveis cronicamente elevados de cortisol podem promover a obesidade através de efeitos na acumulação de gordura. Os efeitos do cortisol são mediados por receptores de glicocorticóides, que têm uma concentração particularmente elevada no tecido adiposo visceral. Na presença da insulina (outro hormônio responsável pelo metabolismo da glicose), o cortisol promove a acumulação de triglicerídeos e o aumento da gordura visceral, o que resulta em aumento da gordura abdominal.

A pesquisa recente publicada na revista Obesity mostrou que adultos que são cronicamente estressados estão mais propensos à obesidade persistente. Nesse estudo foram encontradas maiores concentrações de cortisol no cabelo de indivíduos com um índice de massa corporal (IMC) maior do que 30, ou seja, em indivíduos obesos grau I ou mais.
Um estudo transversal também relacionou esses níveis cronicamente elevados de cortisol com à persistência da obesidade ao longo de 4 anos.

O cortisol é um hormônio secretado pela glândula adrenal, sendo responsável por mediar processos metabólicos fundamentais para a vida. Sua secreção eleva-se também em momentos de exigência física ou mental como, por exemplo, nos exercícios físicos e no estresse psicológico, respectivamente. De fato, estudos anteriores já haviam mostrado essa relação do cortisol com a obesidade, mas as dosagens do cortisol basearam-se na urina, na saliva e em amostras de sangue.

De acordo com a pesquisadora Sarah Jackson, PhD, da University College London, para avaliar as concentrações de cortisol a longo prazo, esses métodos não são os mais adequados. Segundo Sara, o cortisol dosado no cabelo é uma medida relativamente nova mas que pode oferecer um método mais adequado para avaliar cronicamente altos níveis de concentrações de cortisol e sua relação com a obesidade.

Ao longo de quatro anos do estudo, os níveis mais baixos de cortisol foram encontrados entre os participantes não obesos, em comparação com os maiores níveis encontrados nos participantes obesos. Segundo os pesquisadores, “isso sugere que a exposição crônica ao cortisol em altos níveis pode desempenhar um papel importante na manutenção da obesidade”.

A análise final incluiu dados de 2.527 participantes, homens e mulheres, com idade acima dos 54 anos que participaram do Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento (ELSA). Os pesquisadores ainda relacionaram os altos níveis de cortisol no cabelo a outros fatores antropométricos, incluindo peso total circunferência abdominal (p <0,001). Eles destacaram esses achados como clinicamente relevantes, devido às relações previamente estabelecidas entre adiposidade abdominal e risco de doença arterial coronariana e o diabetes tipo 2.

Existem evidências na literatura clínica mostrando que as condições extremas de hipercortisolismo (síndrome de Cushing) e hipocortisolismo (doença de Addison) levam à obesidade central e perda de peso, respectivamente. Isso pode sugerir que o aumento da exposição sistêmica ao cortisol pode ser um fator determinante por trás desta associação.

Pesquisas futuras serão necessárias para analisar ainda mais o papel da exposição crônica ao cortisol no desenvolvimento da obesidade e até que ponto possa também haver uma associação reversa entre o sobrepeso e a secreção de cortisol.

Referências:
1 – Jackson S, et al “Hair cortisol and adiposity in a population-based sample of 2,527 men and women aged 54 to 87 years” Obesity 2017; DOI: 10.1002/oby.21733.
2 – Grundy SM, Cleeman JI, Daniels SR, et al. Diagnosis and management of the metabolic syndrome. An American Heart Association/National Heart, Lung, and Blood Institute scientific statement. Circulation 2005;112:2735-2752.
3 – Anagnostis P, Athyros VG, Tziomalos K, Karagiannis A, Mikhailidis DP. The pathogenetic role of cortisol in the metabolic syndrome: a hypothesis. J Clin Endocrinol Metab 2009;94:2692-2701.